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Textos

Seca, poeira e casamento na Villa Santa Rosa


O grande dia chegou. 14 de março de 1936. Depois de um ano de namoro, dois de noivado, minha irmã subiria ao altar da Igreja Matriz. Família, parentes e amigos acordaram de madrugada para dar continuidade aos preparativos. Uma cabeça de gado, dois porcos e meia centena de galinhas, cucas e sobremesas seriam servidos no jantar festivo, na Sociedade Concórdia. Meu pai decidiu fazer a festa lá porque os convidados seriam melhor recepcionados do que em nossa casa. E, claro, porque a minha irmã, depois de casada, vai morar na villa. Vai sair do salão da festa direto à casa nova. Tivemos bastante trabalho para organizar tudo.
Após o meio-dia, carregamos duas carroças com bacias e caixas e os senhores Custódio e Belarmino, nossos amigos prestativos, conduziram-nas à Villa Santa Rosa. Minha mãe optou por não fazer o bolo da noiva. Achou que ele não resistiria ao calor e aos solavancos da carroça. Combinou com dona Nilza, doceira moradora da Villa, para fazê-lo e entregá-lo após a cerimônia da Igreja. Assim, o merengue usado na cobertura não desandaria. Apesar da terrível seca e canícula que estamos atravessando, não reclamamos do calor. Como falou a tia Bertha, em uma das pausas para abanar-se:
— Precisamos de chuva, mas que ela venha depois do casamento de minha sobrinha.
Estou eufórico. E feliz. Vou acompanhar minha irmã no trajeto de casa até a Igreja. Fui incumbido de duas tarefas. A primeira já está feita: lavei a carroça e a deixei pronta. Em frente ao banco onde a noiva vai sentar-se, coloquei um vaso de flores que a minha mãe cultiva na varanda. As do jardim não estão muito bonitas, quase todas secaram.
A segunda tarefa iniciou agora. Depois de todos acomodados na carroça, iniciamos o trajeto de casa à Igreja da Villa. No banco da frente, meu pai conduz a carroça. Acompanhado de minha mãe, conversam alto e animadamente em italiano. Atrás, Nicolleta, a irmã do noivo, a noiva e eu. Muitos dias sem chover fez o estradão acumular profunda camada de pó que tudo invade e suja. Para garantir o branco do vestido de minha irmã, combinamos que, se avistássemos algum automóvel, ela ficaria em pé para ser vista pelo condutor do veículo e este, quando a visse, diminuísse a marcha evitando nuvem de poeira. Meus pais cuidam da frente e eu, da traseira da carroça, para isso sentei de costas para a noiva e Nicolleta. Ela é linda. Hoje, com vestido e maquiagem de festa, está mais. Está indo conosco porque ajudou minha irmã a se vestir e a se maquiar para o casamento. Isso é muito bom, assim posso senti-la bem perto de mim com o seu perfume de rosas. Os olhos verdes no rosto redondo me encantam. E a voz macia, soa como música. E os seios, bem delineados sob o vestido lilás, fazem-me perder a respiração. Não consigo tirar os olhos de Nicolleta, mas preciso cuidar ...
Não! Ai, meu Deus!
— Automóvel! Automóvel à vista! Automóvel na estrada! Cóf! Cóf!
Ao ouvir meus gritos, minha irmã ficou em pé. Mas foi tarde demais.
O automóvel ultrapassou a carroça. Quando gritei, já era tarde demais. Minha irmã se levantou, mas não houve tempo de o carro diminuir a velocidade.
Meu pai parou a carroça para nos recuperarmos do ataque de tosse. Quando baixou a nuvem de poeira, minha irmã, de olhos arregalados, olhava para todos. Minha mãe e Nicolleta tentaram tirar o máximo que puderam da poeira acumulada na grinalda, rendas e bordados do vestido de minha irmã. Ouvi os xingamentos de meus pais em silêncio. Olhei para Nicolleta. Tive a impressão de que retribuiu o meu olhar. Parecia mais bela com a maquiagem transformada pela poeira grudada na face e no penteado. Retomamos o trajeto, agora estou mais atento. Já imaginou se outro veículo levantar nuvem de poeira? Sei que não cumpri minha tarefa, mas a beleza de Nicolleta e o condutor do veículo, que deveria ser mais cuidadoso nas estradas, também são um pouco culpados.



(publicado em "Santa-rosenses: Histórias especulativas em uma cidade interiorana" - 2015)

Maria Inez Flores Pedroso
06/01/2016

 

 


 


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